Reticulitermes flavipes

Família: Rhinotermitidae

O cupim desta semana é estrangeiro! A espécie Reticulitermes flavipes é nativa da América do norte, mas já foi levada pelo ser humano para alguns países europeus e também já está muito bem instalada em nossos países vizinhos Chile e Uruguai. E claro, se está no Uruguai, existe uma preocupação real que ele seja introduzido aqui no Brasil.

Slide3

E por que “preocupados”?? A resposta é que ele faz parte do “seleto grupo” das 28 espécies de cupins que são verdadeiras devoradoras de madeiras e causam grandes prejuízos para nós, humanos. Nosso cupim da semana pode se alimentar desde papel e livros, até madeira estrutural de construções, podendo deixar prédios inteiros condenados, como há alguns relatos na França e Itália, por exemplo.

Justamente pela sua importância econômica, a biologia desta espécie já vem sendo estudada há quase 2 séculos, desde que um pesquisador de sobrenome Kollar a descreveu em 1837, com o nome antigo de Termes flavipes. Neste trabalho, Kollar destacou a coloração marrom escura a preta dos alados, que seria muito semelhante a formigas, e que poderia acabar passando despercebidos em centros urbanos, facilitando que novas colônias se estabelecessem em diferentes regiões.

Slide2

As suas colônias são policálicas, ou seja, fogem do clássico ninho concentrado em uma estrutura única, e podem ter diversos ninhos secundários conectados por galerias subterrâneas. Juntamente com essa estrutura de ninhos complexos, o R. flavipes desenvolveu uma técnica bastante peculiar de coleta de alimento (forrageamento). Essa estratégia é chamada de “brigada de baldes” (bucket brigades em inglês), e difere da clássica fileira que você certamente já deve ter observado para formigas, mas também para alguns cupins (como esse da foto ao lado), em que vários operários vão andando desde a fonte de alimento até o ninho. 

Slide8

Na brigada de baldes, o transporte do alimento funciona como uma corrida de revezamento (sim, estamos no espírito olímpico!), em que cada um tem subtarefas a cumprir e cada indivíduo percorre apenas um determinado percurso. 

Ela funciona assim: alguns operários, chamados de “batedores”, vão forragear em busca de novas fontes de alimento, e assim que localizado, se estabelece um novo ninho secundário. Em cada ninho secundário terão operários chamados de “colhedores” que são responsáveis por coletar os alimentos desses ninhos secundários e levar até um local demarcado por feromônios. Nesse novo local, outro grupo de operários, os “portadores”, pegam e levam então esse alimento para o ninho primário, onde se encontra o casal real e a maioria dos jovens da colônia. É daí que vem o nome bucket brigade, que significa aquelas linhas de pessoas que vão passando baldes de água de mão em mão para apagar um fogo! Essa estratégia faz com que se evite atrasos no transporte de alimentos, que ninguém fique cansado nem se perca no longo percurso!

Uma outra característica interessante de R. flavipes é que, apesar da colônia se iniciar em ninho central, com uma câmara real e boa parte dos jovens vivendo ali, esse ninho pode ser abandonado em respostas a perturbações, esgotamento de recursos ou mudanças ambientais. Já foi observado, por exemplo, o casal real se deslocando, sob escoltamento de soldados, entre um ninho e outro do sistema policálico. Além disso, também já foram observados  ovos e indivíduos imaturos em ninhos secundários, mas sem a presença de um casal real. E aí ficam as perguntas: será que ter esses ninhos secundários com imaturos e ovos seria uma forma de “garantia”, caso o casal real venha a morrer,  facilitando o desenvolvimento de reprodutores secundários, garantindo assim a sobrevivência da colônia? Ou será que é uma forma de divisão da colônia, como explicamos na publicação que citamos acima sobre ninhos policálicos?

Para responder perguntas como essa, ainda é necessário mais estudos. E isso mostra que, mesmo para esta espécie, que é uma das mais bem estudadas de cupins, ainda existem muitas lacunas sobre sua biologia. Sim, o mundo precisa de mais termiótogos!


Texto por: Viviane Domingues


Referências:

C.E. Long & B.L. Thorne (2006) Resource fidelity, brood distribution and foraging dynamics in complete laboratory colonies of Reticulitermes flavipes (Isoptera Rhinotermitidae), Ethology Ecology & Evolution, 18:2, 113-125, DOI: 10.1080/08927014.2006.9522717

Evans, Theodore & Forschler, Brian & Grace, J.. (2012). Biology of Invasive Termites: A Worldwide Review. Annual review of entomology. 58. 10.1146/annurev-ento-120811-153554.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *