Prática Zaï: chamando os cupins para ajudar a plantar

“Técnica tradicional de povos africanos mostra como os cupins foram grandes aliados no combate à fome na África durante as décadas de 70 e 80”

O Sahel é uma faixa de aproximadamente 5400 km de extensão ao sul do deserto do Saara, na África. Essa região possui um clima semiárido, muito seco e quente, e que sofre com ventos constantes vindos do deserto. As chuvas no Sahel são poucas e normalmente ocorrem de forma irregular, com boa parte da precipitação anual concentrada em algumas poucas tempestades. Enquanto os solos dessa região são bastante secos e compactados pelo calor e vento, e não conseguem absorver bem a água das tempestades esporádicas e rápidas que caem, dificultando a agricultura. 

Na década de 70, uma seca ainda mais severa que o usual assolou o Sahel, que apresentou uma diminuição de cerca de 30% da precipitação anual, e levou muitos países da região a uma situação de fome. 

Foi nesse período de grande seca e fome que a população agricultora da província de Yatenga, em Burquina Fasso, decidiu reviver um sistema chamado Zaï. Esse sistema é uma prática que tem como objetivo aproveitar ao máximo a água que vem das poucas chuvas, e ainda melhorar o solo através de adubação (passiva e ativa) e ação dos organismos do solo (e aí que entram os cupins!). O nome Zaï é derivado da palavra “zaïégré”, que significa “acordar cedo para preparar a sementeira” na língua “more”, falada pelos mossis, o principal grupo étnico do Burquina Fasso.

Estrutura (2)
Estrutura (3)

Nesta prática, o terreno deve ser preparado no início da estação seca, quando são cavadas pequenas bacias de 20 a 40 centímetros de diâmetro e 10 a 5 centímetros de profundidade. Essas bacias prendem a areia, argila e matéria orgânica trazida pelo vento vindo do deserto do Saara (fazendo uma adubação passiva), e também coletam a água que vem das chuvas esporádicas de abril. Muros de pedra cercam o campo para controlar o escoamento da água e dos nutrientes, que é intenso nos solos compactados. Quando as primeiras tempestades chegam, os agricultores colocam esterco seco ou uma mistura de fezes de animais quase decompostos, lixo orgânico, composto, pequenos galhos, cinzas e todos os tipos de resíduos agrícolas dentro das bacias (fazendo agora a adubação ativa). Ao mesmo tempo, são semeadas uma dúzia de sementes de sorgo. Essa planta (que parece um milho) é capaz de quebrar a crosta depositada no fundo das bacias e ajudar a arejar o solo.

Estrutura (4)

Junto com todo esse processo, a matéria orgânica das bacias irá atrair cupins que ocorrem na região, como aqueles dos gêneros Trinervitermes, Macrotermes e Odontotermes, que são comumente encontrados nesse sistema. Eles cavam galerias no fundo das bacias, e as transformam em funis que auxiliam na captação da água e arejar o solo. A água penetra profundamente e cria bolsas de umidade mais profundas, que são protegidas da rápida evaporação e, assim, a água se concentra no buraco das sementes. Além disso, as bacias são enriquecidas pelo escoamento e nutrientes da matéria orgânica transformada e enriquecida pelas salivas e fezes dos cupins, que como já sabemos, desempenham importantes funções nos ecossistemas! (se não sabia, veja esse e esse textos 😉)

Estudos posteriores mostraram que, após cinco anos utilizando a prática Zaï, essa “colaboração” entre humanos e cupins melhorou consideravelmente os solos da região, e possibilitou que as populações locais sofressem menos com a seca e a fome nas décadas de 70 e 80. 

Estrutura (5)

A experiência no Sahel com a prática Zaï mostrou que esse tipo de sistema tem um grande potencial, e que pode inclusive ser adaptado para outras regiões semiáridas do mundo. Aqui no Brasil, algumas partes da Caatinga possuem problemas similares na agricultura, como a escassez de chuva, e solos pobres e compactados. Será que é possível pensar em atrair os cupins da região através de matéria orgânica para recuperação e melhoria do solo, e consequentemente desenvolvimento de uma agricultura mais produtiva e sustentável?


Texto por Caroline Tavares


Referências

Benali, Issam & Kaboré, V. & Guenat, C.. (1999). Zai Practice: A West African Traditional Rehabilitation System for Semiarid Degraded Lands, a Case Study in Burkina Faso. Arid Soil Research and Rehabilitation. 13. 10.1080/089030699263230. 

Danso-Abbeam, G., Dagunga, G. & Ehiakpor, D.S. Adoption of Zai technology for soil fertility management: evidence from Upper East region, Ghana. Economic Structures 8, 32 (2019). https://doi.org/10.1186/s40008-019-0163-1

Kaiser et al. 2017. Ecosystem services of termites in the traditional soil restoration and cropping system Zaï in northern Burkina Faso

Reij, Chris; Tappan, Gray; and Smale, Melinda. 2009. Re-Greening the Sahel: Farmer-led innovation in Burkina Faso and Niger. In Millions Fed: Proven successes in agricultural development. Spielman, David J.; Pandya-Lorch, Rajul (Eds.). Chapter 7 Pp. 53-58. Washington, D.C.: International Food Policy Research Institute (IFPRI).

Roose et al. 1999. Zai Practice – A West African Traditional Rehabilitation System for Semiarid Degraded Lands

Comments

  1. Maria Perpétua Silvestrin says:

    Gostei do artigo. Moro na região do cerrado onde tem muito cupim e chove pouco. Vou tentar a técnica no meu terreno. Agradecida.

    1. Tiago Carrijo says:

      Que demais Maria! Depois conta pra gente como foi! Se conseguir ainda documentar o processo, seria muito legal. Boa sorte. =)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *