Texto por: Giovanni L. F. Reis e Marcella M. Rosa
Quando se fala em cupim, é certo que alguém vai se lembrar dos móveis ou portas que já perdeu graças à fome desses bichos. Pensar no cardápio deles então parece bastante fácil, não é verdade? Todo mundo sabe que os cupins comem madeira.
Bom, na verdade não é bem assim que as coisas são…
Embora muitas espécies realmente se alimentem de madeira (cerca de metade das espécies existentes), os cupins exploram uma enorme variedade de recursos alimentares, incluindo uma gama de materiais lignocelulósicos: o principal componente estrutural presente nos materiais vegetais e que poucos organismos vivos conseguem aproveitar. Por ser de difícil digestão, ela só consegue ser quebrada em moléculas menores e aproveitada nutricionalmente pelos cupins graças a microrganismos que vivem em simbiose nos seus intestinos. É como se os cupins carregassem uma equipe de mini cozinheiros dentro de si para ajudar no preparo de cada refeição.
De modo geral, dizemos que os cupins se alimentam dentro de um gradiente de decomposição da matéria vegetal (desde coisas muito decompostas misturadas ao próprio solo, até grama ou madeira seca), além de algumas outras fontes mais específicas (como líquen e até carne!). Cada espécie tem o seu “prato favorito”, de acordo com as adaptações que sofreram ao longo do processo evolutivo. Essa diversidade alimentar ajuda a explicar o sucesso dos cupins em diversas regiões do planeta e o papel tão importante que eles desempenham nos ecossistemas.
Tradicionalmente a comunidade de termitólogos (quem estuda cupins), divide os cupins em quatro grupos alimentares principais, com base nos recursos mais utilizados por eles como alimento:
Xilófagos (comedores de madeira, os donos da fama)

Estes cupins são os que se alimentam de madeira “crua”, com pouca ou nenhuma ação de decompositores. São os cupins pelos quais todos levam a categoria de vilão! Alguns se alimentam de partes mortas de árvores sadias. Esses incluem espécies de todas as famílias, com exceção de muitos grupos dentro de Termitidae, a maior família de cupins, que corresponde a 80% das espécies. Foi nessa “mega-família” que ocorreu a diversificação de cardápio dos cupins. Algumas espécies xilófagas vivem dentro dos próprios troncos que consomem, o que é bastante benéfico por conferir proteção contra predadores e variações de temperatura e umidade (mas sim, também gera um problema a longo prazo, afinal elas comem a própria casa!).
Ceifadores (apreciam uma boa salada)

Bastante abundantes no Cerrado brasileiro, se alimentam principalmente de capim seco e serrapilheira, que é composta por folhas, gravetos e sementes que ficam na superfície do solo. Esse tipo de alimento é consideravelmente mais rico em nitrogênio (nutriente importante para o desenvolvimento dos cupins) do que a madeira “crua”, mas por geralmente forragearem (buscarem alimento) em áreas abertas, os indivíduos dessas espécies costumam ficar mais expostos a predadores.
Humívoros ou geófagos (comedores de solo)

A maioria das espécies da família Termitidae pertence a esse grupo. Ao ingerir grandes quantidades de solo, conseguem se nutrir da matéria orgânica presente nele: húmus é o solo rico em produtos da decomposição de animais e plantas mortos, fungos, microrganismos e minerais. Esses cupins são o grupo dominante em número de espécies e biomassa em muitas florestas tropicais, e exercem um papel ecológico essencial, muito semelhante ao das minhocas. Além de aerar o solo e facilitar a infiltração de água das chuvas com seus túneis, suas fezes “adubam” essas áreas, aumentando a disponibilidade de diversos nutrientes para as plantas.
Intermediários humívoros/xilófagos (sem extremos por aqui)

São espécies que se alimentam de matéria vegetal em estado avançado de decomposição, o meio do caminho entre a madeira e o húmus. Essa matéria pode estar incrustada em troncos deteriorados ou muitas vezes presente no solo encontrado abaixo deles. Por já estar previamente digerido por agentes decompositores no meio ambiente, este tipo de material possui nutrientes como o nitrogênio em maior quantidade do que na madeira “crua”. Esse grupo reúne cerca de 16% das espécies de cupins conhecidas.
Cupins também suplementam
Existe uma subfamília (Macrotermitinae, da família Termitidae) que ocorre na África e Ásia, que cultivam fungos dentro de seus ninhos. Os cupins levam o material vegetal até o interior dos cupinzeiros, onde os fungos cultivados realizam uma pré-digestão do alimento, considerada extracorpórea, isto é, fora do corpo. Isso facilita o acesso dos cupins cultivadores de fungo aos nutrientes (que já não são tão abundantes) presentes na madeira, material de digestão difícil. Esses cupins acabam por se alimentar também do próprio fungo.

Há ainda os cupins chamados de especialistas pois se alimentam de líquens (organismos formados a partir da união entre fungos e algas microscópicas, encontrados em cascas de árvores e na superfície de pedras), além de algas e musgos. Apenas os gêneros Hospitalitermes e Constrictotermes englobam cupins especialistas, sendo encontrados nas regiões Oriental e Neotropical, respectivamente.
Alguns recursos alimentares um tanto quanto inusitados também aparecem nas dietas dos cupins. Certas espécies utilizam esterco de outros animais como um suplemento alimentar, rico em nitrogênio e matéria vegetal. Os cupins do gênero Inquilinitermes, por exemplo, vivem dentro dos ninhos construídos por espécies do gênero Constrictotermes. Além de usar esses ninhos como abrigo, eles também podem se alimentar do material que os compõe, formado por uma mistura de solo, saliva e fezes.
Em situações específicas, alguns cupins podem até consumir matéria de origem animal. Espécies do gênero Nasutitermes, por exemplo, já foram observadas alimentando-se de carcaças (inclusive humanas) em decomposição, o que provavelmente refletiu as necessidades nutricionais daquela população, que passava por um período de seca.
Também existem registros de canibalismo, possivelmente relacionado a estresse, deficiência de nutrientes e higiene do ninho (eliminação de indivíduos doentes). A necrofagia também já foi registrada, como nos casos do gênero Odontotermes, em que rainhas mortas foram consumidas, provavelmente por seu alto valor nutritivo, e Cryptotermes, com operários que podem comer os cadáveres encontrados na colônia, deixando apenas a cabeça para trás.
Esses recursos especiais não são a principal fonte alimentar desses insetos, mas atuam sempre como complemento para combater alguma deficiência nutricional apresentada pela colônia.

No fim das contas, com tamanha variedade de recursos alimentares, são poucos os cupins que causam prejuízos significativos aos humanos, como tantas pessoas ainda pensam. Estima-se que cerca de apenas 3% das espécies sejam consideradas pragas. Então, por mais que alguns insistam em atacar os móveis de casa, a imensa maioria está ocupada fazendo um trabalho muito importante na reciclagem de matéria orgânica, disponibilizando nutrientes ao solo e assim, mantendo os ecossistemas funcionando.
Por isso, da próxima vez que os cupins entrarem na conversa, vale lembrar: nem só de madeira vivem os cupins! Se existisse um restaurante pra eles, seu verdadeiro cardápio seria muito mais extenso e variado. Já passou da hora de aposentar sua fama maligna e reconhecer a importância dos bichos na natureza.
REFERÊNCIAS
ARAB, A.; HAIFIG, I.; CARRIJO, T. F. (org.). Cupins da América do Sul. Capítulo 1. Santo André: Editora UFABC, 2025. 879 p. ISBN: 978-65-89992-51-6. https://doi.org/10.5281/zenodo.15632670.
BIGNELL, D.E. Wood-Feeding Termites. In: Ulyshen M. (Ed). Saproxylic Insects. Zoological Monographs, vol 1. Springer, 2018.
LIMA, J. T.; COSTA-LEONARDO, A.M. Recursos alimentares explorados pelos cupins (Insecta: Isoptera). Biota Neotropica, v. 7, n. 2, p. 0-0, 2007.
