Texto por: Camila Mellado
Você já parou para pensar no quanto ainda desconhecemos sobre a vida no nosso próprio planeta?
Estudar todos os cantos da terra é desafio enorme e frequentemente ultrapassa as capacidades financeiras e logísticas de uma pesquisadora ou um único grupo de pesquisa. Para ajudar a resolver esse problema, um grupo de cientistas, liderados por pesquisadores do Wikitermes, utilizaram uma estratégia diferente do que historicamente taxonomistas costumam fazer: assim como os cupins colaboram para o crescimento e manutenção de suas colônias, os pesquisadores criaram uma estratégia de taxonomia colaborativa!
Se você não é da área da biologia, talvez esteja se perguntando “Mas o que é um taxonomista e taxonomia?”. A taxonomia é a área da ciência responsável por descobrir, descrever e nomear novos táxons (espécies, gêneros, etc). Esse é um processo cuidadoso e demorado, que precisa conter descrições detalhadas da forma do organismos estudado, produzir imagens que ilustram bem as características, e outros dados importantes sobre aquela espécie, por exemplo, como seu comportamento e onde ela pode ser encontrada. Esse trabalho é um dos pilares da biologia, pois se não conhecemos as espécies, não conseguimos compreender seus papeis no meio ambiente e nem avaliar se precisam de proteção.
Agora que você já entende o que é taxonomia, vamos voltar aos desafios para se conhecer a diversidade biológica. A nossa ignorância acerca dos organismos pode ser “quebrada” em vários níveis.
O nível mais básico está justamente relacionado à taxonomia. Isto é, existe uma enorme quantidade de espécies que existem no planeta, mas ainda não têm uma descrição formal para ciência. Esse desconhecimento é chamado de “Déficit Lineano” do conhecimento, em homenagem ao pai da taxonomia, Carlo Lineu (Linnaeus).
É muito comum, também, não sabermos onde as espécies estão, ou seja, qual a distribuição geográfica delas. E isso é muito comum até mesmo para as espécies conhecidas. Esse desconhecimento é chamado de “Déficit Wallaceano”, em homenagem ao pai da biogeografia, Alfred Russel Wallace.

Normalmente, o trabalho de quem faz taxonomia acontece em grupos pequenos, e as descrições de novas espécies acabam ficando limitadas ao que aquele grupo conseguiu coletar ou ao que está guardado nas coleções científicas às quais eles têm acesso. Só de descobrir uma espécie nova, já estaríamos ajudando a diminuir o “Déficit Lineano”, mas como poderíamos fazer para resolver também o “Déficit Wallaceano” desse novo táxon?
Foi pensando nisso que, durante o Simpósio de Termitologia realizado em Recife, em 2023, que um grupo de cientistas teve a ideia de criar um grupo de WhatsApp e pastas compartilhadas sobre um grupo específico de cupins, os Apicotermitinae, com as pessoas que estavam trabalhando com ele. Essa rede de colaboração permitiu que as mensagens sobre as características dos cupins, sua distribuição e outros dados importantes circulassem de forma muito mais rápida entre os laboratórios, ajudando a combater esses dois grandes déficits da biologia!

Fluxo de trabalho para taxonomia colaborativa. O processo começa com a coleta de dados primários, incluindo amostras de expedições de campo e coleções existentes, bem como dados moleculares derivados dessas amostras. Esses dados são analisados e comparados com a literatura para formular hipóteses de novos táxons. Essas hipóteses são então compartilhadas entre os pesquisadores colaboradores, que verificam a presença dos táxons propostos em suas próprias coleções. Após a consolidação de informações adicionais de todos os grupos de pesquisa participantes, publicações abrangentes são preparadas, incorporando o melhor conhecimento disponível para descrever os novos táxons.
O primeiro resultado dessa rede de colaboração foi a descrição do Scheffrahnitermes ubuntu, que se deu através da troca de informações e dados entre pesquisadores de vários laboratórios. Juntos, eles puderam descobrir que essa espécie está distribuída por várias regiões do Brasil, vivendo na Amazônia, na Caatinga, no Cerrado e na Mata Atlântica, e que pode ser encontrada até mesmo nos Llanos da Colômbia! Isso fez com que a nova espécie já “nascesse” com um déficit Wallaceano reduzido. Sem a troca de informações nenhum laboratório teria tido recursos para descobrir que esse cupinzinho morava em tantos lugares diferentes.

E por isso que a colaboração importa na Ciência. Para que seja possível preservar as espécies, é preciso saber onde elas moram, como elas se comportam e como identificá-las. Em alguns casos, como para a maioria das espécies de cupins, não existem dados suficientes sobre onde elas vivem. Então não conseguimos nem mesmo avaliar se essas espécies estão ou não ameaçadas para tomar medidas de proteção, como incluí-las em “listas vermelhas” de animais ameaçados. Hoje, não existe nenhum cupim na lista vermelha do Brasil, mas essa ausência é muito provavelmente por falta de conhecimento, e não pela falta de risco.
E o nome dessa espécie carrega justamente essa ideia. O epíteto específico da espécie, “Ubuntu”, é uma palavra africana de origem Zulu e Xhosa, que pode ser traduzida como “Eu sou porque nós somos“. Ela se alinha com a discussão sobre a importância da colaboração abordada no artigo. Foi através dessa colaboração, inclusive, que foi possível descrever não apenas os operários da nova espécie, como também os alados, uma casta mais difícil de ser coletada.

Além disso, o nome do gênero Scheffrahnitermes é uma homenagem ao professor Rudolf Scheffrahn, da Universidade da Flórida, que tem trabalhado em colaborações com pesquisadores de todo o mundo na taxonomia deste grupo de cupins (os Apicotermitinae). Veja na imagem todos os autores que publicaram novas espécies e novos gêneros nos últimos 20 anos. As linhas indicam colaborações. Após a publicação do Scheffrahnitermes, essas redes independentes estão todas conectadas.
Em resumo, a história do Scheffrahnitermes ubuntu nos mostra que a colaboração entre laboratórios e o compartilhamento de informações são ferramentas importantes para o avanço da Ciência. Se quisermos realmente conhecer e proteger a rica biodiversidade que temos, precisamos pegar a dica dos cupins: para o cupinzeiro prosperar (ou no nosso caso a Ciência) é preciso que todos trabalhem juntos!
Leia o artigo original:
Camila C. Mellado, Giordano G. Messina, Antonio Carvalho, Danilo E. Oliveira, Rayssa Almeida-Azevedo, Renato Almeida de Azevedo, Hélida F. Cunha, Emanuelly F. Lucena, Joice P. Constantini, Olga P. Pinzón-Florián & Tiago F. Carrijo. Scheffrahnitermes ubuntu (Isoptera: Apicotermitinae), Description of a New Termite Using a Collaborative Approach to Address the Wallacean Shortfall. New Zealand Journal of Zoology 2026, 53, e70025. https://doi.org/10.1002/njz2.70025
