Texto por: Gabriela Cristina de Sousa
Você talvez já tenha tentado imaginar como seria o mundo sem alguns animais que nós conhecemos hoje, né? Mas e sem os cupins, como seria nosso planeta?
Imagine esse cenário: você acorda um belo dia e se depara com portais de notícias anunciando que os cupins simplesmente DESAPARECERAM. Diversos pesquisadores, em vários países, alegam não encontrar mais sinais de colônias contendo cupins vivos em lugar algum, indicando que, aparentemente, todas as espécies foram extintas.
As pessoas dando entrevistas, comemorando a ausência das “pragas que comem madeira” e dizendo que se sentem aliviadas por não precisarem mais se preocupar em tê-los destruindo os seus móveis.
Entretanto, esse alívio provavelmente iria durar pouco. Um mundo onde esses insetos não existem pode ser muito mais assustador do que a maioria das pessoas imaginam.
As pesquisadoras Hannah Griffiths e Louise Ashton, juntamente com outros cientistas, compararam os cupins a um “seguro ecológico”, porque eles ajudam a natureza a suportar eventos extremos. Elas mostraram que, ao escavar túneis no solo, eles arejam e facilitam a infiltração da água da chuva. Com isso, a presença de cupins significa que as sementes das plantas germinam mais e pequenas mudas sobrevivem mais, fazendo com que a vegetação prospere mesmo por longos períodos de seca. Sem eles, o impacto do aquecimento global sobre as florestas tropicais poderia ser muito mais severo.
Sem os cupins, em pouco tempo haveria um colapso na cadeia alimentar em diversas partes do mundo. Os cupins representam até 95% da biomassa de insetos nos solos de ambientes tropicais, ou seja, em todos os principais biomas brasileiros. Isso faz com que eles sejam fonte de alimento de uma diversidade de animais, incluindo muitos mamíferos, como os queridos tamanduás e tatus, por exemplo, várias aves, anfíbios, lagartos, aracnídeos e outros insetos. Sem suas fontes primárias de alimento, populações animais inteiras estariam ameaçadas, potencialmente causando um grande declínio ou até a extinção de parte da fauna terrestre como conhecemos atualmente. Como eles estão na base da cadeia alimentar, não seriam só os animais que os comem diretamente, toda a cadeia alimentar poderia ruir.
Um mundo sem cupins seria um planeta sufocado por seus próprios resíduos. Eles são responsáveis pela degradação de metade de toda a madeira morta e serapilheira (folhas e galhos caídos no solo) das florestas tropicais. Assim, folhas, galhos e troncos mortos, que costumavam sumir em alguns meses ou anos, se acumulariam de maneira cada vez mais desequilibrada. Sem a ação desses importantes decompositores, os resíduos dos detritos acumulados não retornariam da forma adequada ao solo. Isso culminaria na redução da fertilidade do solo e na perda da renovação natural das florestas.
Além do simples acúmulo visual de folhas, galhos e troncos, sem os cupins, os ciclos de carbono e nitrogênio também seriam diretamente impactados. Eles fazem parte da chamada macrofauna de solo, composta por invertebrados visíveis a olho nu que desempenham papel na ciclagem de nutrientes. Ao devorarem a parte dura das plantas, eles e seus simbiontes, ou seja, microrganismos que vivem em seus intestinos e auxiliam na digestão, permitem a mineralização do carbono e do nitrogênio. Sem esse processo, esses elementos não voltariam ao solo e à atmosfera, interferindo em seus ciclos naturais. Para se ter uma ideia, os cupins representam uma das maiores fontes naturais de gás metano do planeta, correspondendo a cerca de 4% das emissões globais. O metano, além de fazer parte do ciclo do carbono, é um gás de efeito estufa. Apesar da extinção repentina dos cupins diminuir parte das emissões de metano num primeiro momento, ela também resultaria em um aumento expressivo da liberação de CO₂ gerado pelo enfraquecimento das árvores, acelerando os desastres climáticos.
Pensando em tudo isso, com o tempo, as pessoas provavelmente perceberiam que o sumiço desses incríveis insetos iria acarretar em uma série de questões mais sérias que elas sequer poderiam ter imaginado no início. Neste cenário hipotético, muitas pessoas provavelmente estariam desejando que os cupins nunca tivessem desaparecido ao ver os noticiários informando que a extinção repentina deles teria sido a causa de todos os problemas relatados, e cientistas possivelmente estariam em uma corrida pela busca por formas de suprir esta falta antes que os maiores impactos pudessem ser sentidos.
É perceptível que boa parte das espécies de cupins nos traz muito mais vantagens do que prejuízos! Eles têm uma grande importância para o planeta e não tê-los conosco poderia trazer muito mais riscos do que imaginamos. Por isso, devemos entender a importância de conservar a biodiversidade, para preservar todas as interações que surgem entre os seres vivos e o meio ambiente.
Referências:
- Abe et al. Termites – Evolution, Sociality, Symbioses, Ecology. 2000.
- Arab et al. Cupins da América do Sul. 2025.
- Ashton, L. A. et al.; Termites mitigate the effects of drought in tropical rainforest. Science, 363(6423), 174-177, 2019.
- Eggleton. The State of the World’s Insects. 2020.
- Griffiths et al.; Termites can decompose more than half of deadwood in tropical rainforest. Current Biology, 2019.
- Ito, A.; Global termite methane emissions have been affected by climate and land-use changes. 2023.
- Law et al. The challenge of estimating global termite methane emissions. Global Change Biology, 2024
